A greve dos caminhoneiros é uma caixa de Pandora?

por Adriano Daltro Schröer

Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente quer saída
Para qualquer parte

Titãs, “Comida”. Álbum: Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas

Em Ijuí, na quinta, 24, pela manhã, os caminhoneiros percorreram em buzinaço as ruas da cidade e um ato na Praça da República fechou a manifestação. A ausência de uma pauta clara é nítida no contexto geral. As manifestações de autoridades e de representantes da sociedade variaram entre o discurso padrão anticorrupção e antipolítica e alguns que colocaram as questões práticas e gerais como a proposta de incluir na pauta a mudança na política de reajuste nos combustíveis. É nítido também que setores conservadores da sociedade já se mobilizam e infiltram suas pautas no movimento, como a “necessidade” de uma intervenção militar, a suspensão das eleições e até adiantamento delas, por exemplo.

O caldo para matar a fome e a sede daqueles que querem uma saída para qualquer parte vai engrossando. Momentos como este são propícios para ideias descontextualizadas e mirabolantes, explorando o sentimento de descontentamento e revolta, ainda que natural, sem foco claro. Em 2013, as mobilizações no país começaram com a pauta “Não é por 20 centavos”, contra o aumento abusivo das passagens de ônibus. Logo outras pautas foram incluídas no movimento e com o caldo criado pela mídia e pela situação econômica no país, o resultado foi o golpe. Teorias da conspiração infestam o ar e o movimento, com o desabastecimento e o país parado, daria a senha para o golpe militar ou outras saídas não institucionais.

O movimento dos caminhoneiros é legítimo. Hoje, todos sofremos com uma política de reajuste nos combustíveis que é refém de interesses internacionais. A mudança da política de preços realizado pelo governo Temer beneficia as grandes petroleiras, acabando com o refino nacional e obrigando o Brasil a importar combustível. Atrelado a isso, ainda, a oscilação do preço do dólar e no preço internacional do petróleo. É uma política de governo equivocada, que desconsidera o papel fundamental da Petrobras para realizar uma política de preços que considere o desenvolvimento e os interesses nacionais, inclusive os interesses de sua população.

Na tarde de ontem, motivado pela convocação da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (FETAG), uma reunião ocorreu na prefeitura, em que o prefeito em exercício Valdir Zardin recebeu a solicitação de um grupo que se agregou ao movimento dos caminhoneiros (empresários, entidades, sindicalistas). Hoje esses setores se reúnem novamente na Praça da República para um ato, sem pauta geral definida, ainda que a pauta chave seja o preço dos combustíveis. O Sindilojas orientou o comércio a fechar pela manhã. A frota municipal de veículos, não fundamental, ficará parada, inclusive o transporte escolar. As escolas municipais não terão aula.

A FETAG e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ijuí trarão para a praça suas próprias revindicações. Entre elas, a diminuição dos recursos para o Plano Safra, o aumento de juros do plano e as desonerações dadas ao agronegócio. Máquinas agrícolas já ocupam as ruas da cidade nesta sexta e devem parar os bancos. Ainda segundo relato dos organizadores, todas as regionais da FETAG estão mobilizadas e alguns pontos as interdições acontecem muito mais pela participam de agricultores do que de caminhoneiros.

Trabalhadores Rurais se somaram à mobilização nessa sexta e trouxeram tratores à Praça da República

Ainda na tarde de quinta, o Movimento Social e Sindical de Ijuí também esteve reunido, articulando o seu apoio ao movimento dos caminhoneiros e a convocação de suas bases para o ato de hoje. A preocupação dos representantes de trabalhadores e trabalhadoras e dos movimentos sociais é incluir pautas referentes à defesa da democracia e de uma saída política para a crise no país, através de eleições diretas. “A saída da crise é pela democracia” estampa uma faixa no ato de hoje, materializando em palavras a preocupação do movimento sindical.

 

Não está aí uma caixa de Pandora? Vários movimentos, várias pautas e um país em crise política, econômica e social. O movimento dos caminhoneiros reconhece que não resistem por mais de duas semanas as paralisações. As negociações em Brasília, com o governo federal, não demonstram nenhum resultado efetivo a não ser o da intensificação do movimento de paralisação que a cada dia cresce em número de interdições de estradas no país. O governo sugere medidas paliativas ao preço dos combustíveis e sinaliza que deseja “cansar” as paralisações, que não durariam até a próxima segunda-feira.

Movimento começa a se concentrar na praça nessa sexta, 25 de maio

Há em tudo pautas justas. Mas há também uma parcela do próprio movimento que repassa, seguindo o fluxo do discurso antipolítica e anticorrupção, ideias de um golpe dentro do golpe, com posições conservadoras. Infelizmente as avaliações no movimento tendem a desconsiderar que tanto a crise econômica (e dentro dela o preço dos combustíveis) quanto a política, resultam de políticas gerais do governo Temer. A relação direta não é apenas com a corrupção, como o discurso de alguns quer fazer crer.

Há saída, mas não para qualquer parte. Nossa fome e nossa sede serão saciadas por um instrumento legítimo, democrático e soberano. O voto popular. A saída para esta crise é política. É a garantia de eleições diretas que deem ao país um governo legítimo, respaldado pela democracia. Então, nesta manhã, todos à Praça da República. Não esqueça de levar sua sede e sua fome. De quê?

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