Estudantes param ônibus em São Borja em protesto contra o aumento das passagens

Tarifa passou de R$ 2,95 para R$ 3,55, um aumento de 20%

Estudantes universitários ocuparam as calçadas que contornam o estacionamento da empresa Integração, responsável pelo transporte público de São Borja, impedindo a saída dos ônibus entre a manhã de ontem e hoje. Eles protestavam contra o aumento da tarifa, que passou de R$ 2,95 para R$ 3,55, um reajuste de 20%, que significa R$ 0,60 a mais a cada passagem. Com a pressão, os estudantes esperam conseguir abrir um espaço de diálogo com a empresa e a prefeitura, para que haja algum tipo de negociação em relação à redução do valor da tarifa.
A ação já causou tensão na cidade. No horário da saída dos ônibus, na manhã desta terça-feira, um motorista da empresa tentou avançar sobre o grupo de alunos que bloqueava a garagem da empresa com um cordão humano. O carro só recuou quando o vidro trincou. Alguns estudantes dizem ter visto um tijolo sendo lançado contra o veículo, o que não é perceptível através dos vídeos gravados no local.

Motorista da empresa tentou forçar passagem de ônibus sobre estudantes em protesto

Outras testemunhas acreditam que a pressão das mãos dos jovens contra os vidros resultou em partes trincadas. “Eu achei que ele não iria passar, ele empurrou o meu corpo, se eu caísse no chão ele iria passar por cima de mim de verdade e eu estou muito chocada com isso”, relata a estudante Richelle Reis. O incidente foi registrado em vídeos e amplamente divulgado nos grupos de mídias sociais da cidade, com intenso debate acerca do direito de manifestação e sobre a ameaça à vida dos estudantes. A visibilidade também possibilitou que o aumento da tarifa se tornasse um assunto debatido pela comunidade local.
À tarde, os estudantes gravaram vídeos de carros do Exército passando regularmente em frente às calçadas ocupadas pelos manifestantes. Um cachorro que acompanhava os estudantes no protesto também foi ameaçado por uma pessoa que disse ter sofrido uma tentativa de mordida. Um homem tentou atacar o animal com uma faca e só foi contido quando a polícia foi chamada.

Richelle Reis quase foi atropelada, assim como outros estudantes que protestavam

Durante todo o dia de ontem, os estudantes receberam apoio na forma de buzinas, doação de lanches, água, suco, café. “Nunca houve um aumento tão abusivo. O aumento do salário mínimo foi um e pouco (por cento). O aumento da passagem de ônibus foi mais de 20%. Então, onde o povo vai parar com isso? Tantas pessoas humildes, empregadas domésticas, funcionários, alunos, os pais pobres que têm que pagar a passagem destes ônibus, como vão fazer?”, questionou Júlia Loureiro, aposentada e moradora de São Borja, que usa regularmente o transporte público para tratamento de saúde. Ela participou do protesto por alguns minutos, segurou cartaz junto aos estudantes, conversou com motoristas. João Costa, morador da cidade, compareceu para apoiar o protesto, ajudando a fazer a janta dos estudantes: “um risoto, com alimentos doados por um professor da Unipampa e pelo CPERGS”, afirmou.
Durante a noite, a comunidade fez doação de colchonetes, colchões de ar, lençóis. Sindicatos emprestaram barraca e lonas para cobrir a calçada ainda suja de lama, resultante das últimas chuvas. A ocupação também traz à tona o problema da falta de manutenção das vias urbanas. Uma das ruas, com paralelepípedo, tem vários buracos, que ainda estão cheios de água, mesmo após o dia quente e ensolarado na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul.

Mobilização começou na sexta-feira

A ocupação da calçada da empresa faz parte de um conjunto de ações que estão sendo organizadas desde a semana anterior. A estudante Érika Rebes, acadêmica do curso de Jornalismo da Unipampa, tem participado de todas as atividades de mobilização. Ela conta que “desde que estudantes da Unipampa ficaram sabendo do aumento e foram atrás de diálogo, tentaram saber o porquê deste aumento de R$ 0,60”, muito maior que nos anos anteriores. Na sexta-feira, os estudantes se dirigiram à Agência de Regulação de São Borja (Agesb) e não foram recebidos. “Não obtivemos informações, não obtivemos diálogo, então, nós optamos, no sábado, por ocupar a garagem da empresa Integração, que está com os ônibus rodando na cidade”. Nesse dia, devido à ação dos estudantes, nenhum veículo saiu da garagem. “Era feriado, então isso contribuiu para que a empresa não buscasse um enfrentamento. Mas, ao mesmo tempo, também não houve diálogo, então a gente continuou aqui.”

Érika Rebes, acadêmica de Jornalismo da Unipampa, tem participado da mobilização de forma ativa

Na segunda-feira, os estudantes foram ao Executivo Municipal, mas o prefeito em exercício Roque Feltrin informou que não haveria mudanças na tarifa. Com essa negativa, os estudantes foram à Câmara de Vereadores. “Levamos cartazes, já que não podíamos falar nada. Ainda bem que os vereadores tomaram posições e muitos foram a favor da nossa luta, do nosso pedido de explicações. Mesmo vereadores de situação disseram que ficaram sabendo do aumento pela imprensa, alguns disseram que acham injusto e apoiam nossa causa”.

Na manhã de terça-feira, os manifestantes voltaram a ocupar a frente da garagem da empresa Integração. “Estamos de plantão, para não deixar nenhum ônibus sair enquanto não houver um diálogo digno e justo, que nós merecemos. Não fomos ouvidos pelo prefeito, nem pelo dono da empresa, e a gente quer explicações, quer diálogo, quer negociação. A gente é estudante e está lutando por uma causa que é de toda a população que usa o transporte”, afirmou Érika.

César Beras, professor da Unipampa, teme pelo risco de evasão dos alunos

O professor César Beras, da Unipampa, analisa que há um risco de aumento da evasão escolar devido ao impacto do aumento da tarifa. “R$ 3,50 significa evasão escolar, significa um impacto social muito grande para a Unipampa e para toda a sociedade são-borjense. Então, estamos neste ato cívico de defesa da democracia, porque este aumento não foi discutido com ninguém e está todo mundo sofrendo com este impacto.”

 

Após 24h de protestos em frente à garagem, empresa de transporte urbano recebeu reintegração de posse

Depois da noite de protesto em frente à garagem da empresa de transporte urbano, a manhã desta quarta-feira iniciou com reintegração de posse cumprida pela Brigada Militar. Um estudante foi encaminhado à delegacia e manifestantes que marchavam até o local, em protesto ao ato, foram ameaçados por um cidadão, de porte de arma branca. Após sua liberação, o grupo se dirigiu novamente à Prefeitura, em busca de explicações. O local também recebeu ordem de reintegração de posse.

 

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